• Festina Lente

Adaptando-se a condições adversas

Atualizado: 10 de Abr de 2020


"(...) os homens, embora mortais, não nascem para morrer, mas para recomeçar.”

Hanna Arendt, A Condição Humana.


Trancar pessoas em suas casas por um período desconhecido de tempo representa um desafio além da razão. Como sugere Benilton Bezerra, psiquiatra brasileiro, estamos vivendo uma experiência social não planejada que embaralha nossas noções de tempo e espaço. Isto não é apenas fundamentalmente perturbador, mas muito assustador.


Ao contrário de nossos antepassados pré-históricos, não se trata de lutar ou fugir, reações instintivas e primitivas de nosso cérebro. Devemos cumprir a ordem geral de confinamento e aprender a lidar com o medo de outras formas.


Imagine que vivemos em um mundo relativamente equilibrado e que desfrutamos, até certo ponto, do que Susan David – psicóloga e professora na Universidade de Harvard – chama, em seu livro Agilidade Emocional, de “a praga do conforto”. Nossa zona de conforto emocional nos leva automaticamente ao familiar e ao acessível nos garantindo segurança. Da mesma forma, nossos corpos tendem à homeostase, equilíbrio estável entre seus elementos e funções.


Surtos como o de Coronavírus/Covid-19 representam uma ameaça para nossos corpos, ao desiquilibrar seu funcionamento biofísico e, para nosso complexo “eu” contemporâneo, gregário e sociável, ao desalojar de forma profunda nossas percepções de segurança.


A tecnologia está aqui apenas para aplacar nosso medo de perder contato com o mundo externo. Se ao menos nos conectarmos para receber um sinal de “câmbio” do outro lado da linha saberemos que não estamos sozinhos.


Esse novo estado das coisas nos remove, portanto, do hábito de virar a chave no automático e nos joga – todos – num tempo suspenso e de indeterminação. Vamos chamar de transistases esse momento de desconforto e estranheza em que se enfrenta condições adversas. Mas são as situações-limite (como essa) que nos desafiam a abandonar soluções automáticas e nos abrem espaço para protagonizarmos crescimento pessoal.


Se considerarmos a noção de "adaptação ativa" do filósofo francês Henry Bergson, em Evolução Criadora, aquela que tira vantagem da influência do meio ambiente e prospera a partir das condições externas –, precisaremos fazer um esforço de análise prévio a qualquer mudança/adaptação para a superação do desafio apresentado pela atual pandemia.


Sugerimos que o desafio do atual confinamento domiciliar limitado a interações online com o mundo exterior possa ser encarado a partir de três níveis complementares: um nível concreto-prático, um nível emocional e um nível sutil-intuitivo.


O nível concreto-racional requer a observação de todas as ferramentas, instrumentos, recursos de que dispomos e propõe um inventário de experiências que remotamente se assemelham ao desafio enfrentado. Eles são de alguma forma úteis, ou novos devem ser construídos?


O nível emocional define como abordaremos o problema em questão. Ser emocionalmente ágil, segundo Susan David, é escolher como você deseja responder ao seu sistema de alerta emocional. É estar ciente do próprio poder de escolha, mesmo na adversidade.


No nível sutil-intuitivo, a intuição tem o papel de nos guiar a partir de nossas histórias de vida, memórias e impressões. Considerar nossa dimensão sutil é admitir o poder de nossos recursos menos visíveis no desbloqueio de respostas e padrões subjacentes. Cabe-nos torná-los mais conscientes para compreendermos como interagem com o presente.

Vivemos um paradoxo. Talvez nunca antes tão isolados um do outro e tão unidos por um destino comum, nas palavras de Edgar Morin. No entanto, para que a humanidade possa sobreviver, o antropológo, sociólogo e filósofo francês afirma que esta deve se transformar. Abre-se nesse momento uma chance de mapear recursos pessoais e um convite a esforços coletivos e solidários para uma reconexão com o outro em novas bases. Afinal, somos seres adaptáveis, capazes de prosperar em condições adversas e suficientemente sensíveis para identificar momentos de aprendizagem, crescimento e recomeço.









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